"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

PRIMITIVISMO -- SABERES TRADICIONAIS -- SAÚDE NATURAL -- EVOLUÇÃO HUMANA



segunda-feira, 2 de maio de 2011

Escolha e identidade

"Por que não destruir a natureza?" Eis uma pergunta que por vezes os tidos como "ambientalistas" reencontram. Simplesmente, porquê? Alguns por vezes se perdem para respondê-la com argumentos técnicos, mas a verdade é que se trata de uma questão exclusivamente moral. Infelizmente a única resposta que realmente faz juz à arrogância da pergunta é aquela que por vezes temos de usar para acalmar uma criança: "porquê não." Trata-se de uma questão de escolha. E trata-se também de uma questão, no fundo, completamente irreal.

Digo irreal porque não é sobre a destruição da natureza que se está perguntando. Da mesma forma que não era de racismo que se tratava quando perguntavam aos primeiros abolicionistas: "Por que não subjulgar os negros?"

O que está em jogo neste tipo de pergunta é uma questão de identidade. Alguém que não considere os negros ou as mulheres como seres dignos de respeito não lhes dará respeito. O mesmo ponto enfrentam vegetarianos e defensores do abolicionismo animal.

Considerar outra entidade (outro sexo, outro humano, ou outro animal) como digno da mesma existência (e do mesmo bem estar e liberdade) que a própria pessoa deseja possuir, é estar identificado, ao menos em algum nível, com o objeto do respeito. É reconhecer naquele outro ser a sua própria senciência, ou seja, a capacidade de sentir, de sofrer, e junto disso o desejo de defender a própria vida e integridade.

Aliás, não é necessário falar sobre a natureza como uma entidade ("Gaia", por exemplo) para lhe estender esse raciocínio. Este ponto deveria ser óbvio, mas infelizmente tenho que enfatizá-lo. Gaia, ou a "natureza", existindo como um ser único ou não, não deixa de se tratar de uma miríade de seres vivos, e estes com certeza sentem e sofrem e desejam se manter vivos e saudáveis. E mesmo que não sejam todos objetivamente capazes de sentir, como alguns gostariam de objetar, o ponto não é se eles de fato sentem ou não, mas se nos identificamos com eles ou não.

Afinal, não foram incomuns na história recente da humanidade atos hediondos cujos perpetradores, justificados por lógicas das mais inventivas (científicas ou religiosas), acreditavam não existir mal algum em causar a dor a um ser que a olhos vistos sofria com a maldade que lhe causavam. O sofredor simplesmente não era reconhecido como tal.

Portanto na verdade não se trata de uma questão de reconhecer porque não destruir a natureza. Mas sim de se ver como natureza, e não como alguma outra coisa absurda que não é natureza, e que está na mente de quem faz estas perguntas quando pensam em si: "Porque não destruir a natureza, se eu não sou natureza?"

Se trata de se identificar com o outro ser de modo a reconhecer alí, naqueles atos cruéis, algo que você não gostaria de estar sentindo. A identificação é a base. O respeito, que é desejado, é a consequência que deriva de uma identificação adequada.

E para alguém se identificar com outro ser, ou com um coletivo de seres, mesmo com outros seres humanos, não há nada que logicamente possa o convencer. Dizem que talvez algo em nossa genética possa incentivar a crueldade ou o respeito. Porém este tipo de lógica geneticista pode nos levar a um beco sem saída de determinismos biológicos.

A rigor, a única coisa que leva alguém a se identificar com outro ser é sua livre escolha por fazê-lo.

Esta escolha é mais fácil quando todos ao nosso redor a realizam também, e isto gera padrões culturais de identificação. É mais fácil também quando convivemos com as entidades em questão, e não apenas lemos sobre elas nos jornais.

Porém vivemos em uma época em que, ainda e infelizmente, a maior parte da sociedade se identifica muito mais como "civilizados", ou "modernos", do que como "seres vivos". Se não revermos nossas escolhas e identidades culturais logo, corremos grande risco de eliminar tudo o que é ainda vivo e não civilizado. Esta mudança de identidade deve ser a base de qualquer processo que se proponha a evitar estas crueldades, e esta base se dá na opção íntima de cada um, não naquilo que se pretende mostrar em suas ações.

Para complementar, uma vídeo curto sobre esta questão, aprofundando-a:
http://www.youtube.com/watch?v=xgzslqGzaEs - Derrick Jensen, sobre identificação.

À proposito, logo vou incluir na barra lateral links para videos e outras falas curtas e pertinentes como esta, deste e de outros pensadores.

14 comentários:

  1. Esse foi meu post preferido até agora :)
    Muitas vezes ouço as crianças dizerem que elas não são animais, como se fosse ofensivo ser comparada a um animal.
    Que valores estamos passando para nossas crianças?

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  2. Muito bom, Felipe!
    Nossa, de verdade mesmo: extramamente interessante esta postagem. Já me deparei algumas vezes com estes questionamentos, mas acho que não tinha analisado por este ângulo; aliás, nunca consegui chegar a alguma conclusão muito clara sobre isso tudo, mas você me acendeu algumas luzes, haha. Também é interessante ver que você conseguiu englobar assuntos como racismo e ambientalismo partindo de um mesmo pricípio...

    E sim, inclua os links de vídeos interessantes. Acho que este é o caminho do blog.

    abraços!

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  3. Muito bom!! SEu texto eh um otimo complemento para esse aqui

    http://www.oeco.com.br/fernando-fernandez/19894-por-que-conservar-a-natureza-afinal

    Voce devia tentar divulga-lo no Eco!

    Bjao

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  4. Nossa Felipe!! Gostei bastante desse texto. Pensei muito nisso, sob varios aspectos. Mas nunca sob este, ja pensei nesta visao relacionando nós e animais ou arvores, mas nao de forma tao abrangente.

    Parabens!

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  5. Parece que essa pergunta gerou uma inquietação criativa em você, não é? Realmente interessante a sua abordagem, e a do texto recomendado pela Carolina também. As pessoas estão aceitando com muita facilidade da ideia de que não podemos destruir o ambiente simplesmente porque nós dependemos deles, porque nos destruiremos sem ele. Mas esse "nós" é uma identificação com a civilização, como mostra o Jensen. O que precisamos não é aprender a extrair os recursos exigidos pela civilização de modo sustentável. O que precisamos é questionar porque vivemos num modo de vida que precisa acumular e expandir, por exemplo, e que se relaciona com a natureza como um "isso". Mas eu acho que o niilista não se contentaria em se identificar com a natureza. Ele também perguntaria porque a humanidade não deve ser destruída, pois de fato ele não tem uma dúvida. Ele está apenas expressando sua incapacidade de ver qualquer sentido na vida, o que é um dos efeitos da civilização: a perda do sentido. Ele pode até acreditar que ele é a parte da natureza que é responsável pela "apoptose" (morte programada) do próprio planeta, porque tudo tem um fim, e realizar esse fim daria um "sentido" para sua vida. Veja por exemplo o quanto a civilização assimilou a filosofia dos adoradores da "Boa Morte", da entropia. Vivemos numa sociedade suicida, não apenas porque o número de suicídios cresce a cada dia, mas porque é cada vez mais difícil encontrar bons motivos para viver. Talvez seja melhor morrer, para que outra coisa nova apareça. Essa crença é mais complicada do que parece, e ela toma conta da nossa cultura "necromântica". Eu teria muito que escrever sobre porque "Shiva" é a divindade da trindade hindu que nós mais nos identificamos hoje em dia. Sobre as relações entre a necromancia e a civilização. Mas isso é outro assunto. O problema é que muitos estão a dizer "Gaia deve morrer", porque acumularam um ressentimento da vida. "A vida é injusta" é uma expressão dessa crença. Estão a reclamar, entre outras coisas, do fato de terem "nascidos para ser assim", como diz a frase de uma música. O próprio autor da pergunta que eu citei dizia constantemente: eu sou goro, feio, doente... Ele desprezava a si mesmo, queria se auto-destruir com o excesso de bebida e cigarro. Ele mesmo disse isso. Como falamos desse assunto, de um modo ou de outro estamos dialogando também com crenças de auto-rejeição, não apenas de auto-alienação.

    A parte mais complicada do seu texto para mim foi quando você disse: "A rigor, a única coisa que leva alguém a se identificar com outro ser é sua livre escolha por fazê-lo". Essa questão da identificação é uma coisa bastante complexa. Essa frase fez parecer que podemos nos identificar com qualquer coisa que quisermos, como se não houvesse critério, e isso pode gerar problemas. Mas eu sei que não essa sua intenção. Num todo, a escolha do tema é muito boa. Isso vai longe.

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  6. Saudações querido amigo!

    Você e a sagrada inspiração (AWEN) estão andando de mãos dadas. Como bom pagão, vou puxar a sardinha de texto pro meu / nosso lado.
    Acho que a questão da identificação é bem complexa
    mas acredito que esta aí a essência do pensamento/sentimento/pertencimento ecológico.
    Em uma sociedade estritamente material, a realidade é desprovida de espírito. O outro é desprovido de espírito porque o ser não encontra o espirito de vida nele mesmo, e aí torna-se como o Jonas resumiu, necromântico e entrópico.
    Isso tudo quando pensamos na realidade do indivíduo, agora quando isso é extrapolado para uma sociedade? É aí que entra o "Pensamento Abissal" ideia defendida pelo Boaventura de Souza Santos, que é a minha indicação para continuarmos essa reflexão.

    www.scielo.br/pdf/nec/n79/04.pdf

    Mas e então, como ficamos?
    Acho que para lidarmos com essa crise, devemos cultivar a semente de seu oposto. E esse oposto entendo eu, com minha compreensão limitada, que estamos falando o Animismo dos "primitivos".
    O animismo, em linhas gerais é resumido em tudo é povoado de espírito e por essa razão, meu espirito pode se comunicar, co-existir, identificar com tal. Veja o poema milena do Bardo Ámergin que deixo como semente de luta para lidarmos com esse buraco que esta instalado nos seres da modernidade.


    A Canção de Amergin

    "Sou um vento do mar,
    Sou uma onda do mar,
    Sou um veado de sete pontas,
    Sou um falcão num penhasco,
    Sou uma lágrima do Sol,
    Sou a beleza entre as flores,
    Sou um javali,
    Sou um salmão num lago,
    Sou um lago numa planície,
    Sou uma colina de poesia,
    Sou uma lança combatente,
    Sou um deus que forma fogo na cabeça
    Quem senão eu conhece os segredos das pedras erguidas?
    Quem senão eu sabe onde o Sol se põe?
    Quem prediz as fases da Lua?
    Quem traz o gado da casa de Tethra e o separa?
    Quem senão eu dá as boas-vindas ao gado de Tethra?
    Quem dá formas às colinas?
    Invocai, Povo do Mar, invocai o poeta, para que possa fazer-vos um encanto.
    Pois eu, o Druida, que pus as letras no Ogham,
    Eu, que separo os combatentes,
    Hei de abordar a fortaleza das Sidhe em busca de um poeta hábil, para que juntos possamos fazer conjurações.
    Eu sou um vento sobre o mar"

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  7. Pessoal, obrigado pelos comentários. Colaborações assim são muito importantes, já que eu sinto que tenho de sintetizar muito os assuntos. Com a discussão podemos aprofundar mais, e conectar com outras questões.

    Os textos que vocês indicaram lerei com carinho!

    Janos, algumas semanas antes da sua fala no E. Impróprio, dois amigos meus me fizeram esta pergunta também. Fui percebendo que é um assunto básico, que têm de ser tratado no "começo da conversa", por assim dizer, pois se trata de onde cada um inicia seu raciocínio.

    Com relação ao final, de fato fica esta linha solta, e sua crítica procede.

    Acho que o que quis dizer que talvez tenha ficado confuso é que, apesar de existirem boas razões para se identificar com a vida e não com a morte, um necrófilo pode simplesmente se recusar a vê-las, e mesmo que não tenha razões para se odiar.

    Neste ponto me lembro de nossas discussões em que você falava da identificação como filhos de Deus, de escolher seguir o caminho divino, ou natural - e que neste sentido, para mim, também é o Animismo que o Gabriel falou, ou seja, são focos completamente complementares. Espero ter entendido bem aquela questão, mas posso estar enganado.

    E de fato fica um fio solto, que é a falta de referências sobre com o que se identificar. O que seria certo e o que seria errado, em outras palavras. Vivemos na ausência destas referências, mas em outros momentos na história nós tinhamos referências adequadas e as abandonamos, o que se tratou de uma escolha de fato arbitrária. Pretendo falar sobre estas referências em próximas postagens.

    Smigou, muito bonito o poema, acho que vou escrever ele em alguma parede de casa! (ou em um cartaz, já que em alguns meses terei de me mudar, e ai posso levar o poema junto)

    Carol, obrigado pela sugestão de divulgação no Eco. Vou deixar um link para este lá em um comentário.

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  8. Felipe,

    Você está falando de boas razões, não de razões verdadeiras. Acho que eu não tive condições de deixar muito claro o que eu penso sobre a minha "escolha espiritual". É um assunto bastante complexo, e com o tempo aprendi a diferenciar esse meu caminho do animismo. Tem uma diferença básica e importante, mas que não tenho como explicar agora. O problema é a divinização do eu. O paradoxo é que Deus é o "totalmente outro" em relação ao que ele criou, e ao mesmo tempo está mais próximo de mim do que eu de mim mesmo. Mas não importa o quão fundo eu mergulhe em mim ou na natureza, não encontrarei Deus aí, somente ídolos. Tenho sérias dúvidas quanto à "naturalidade" do paganismo. Também tenho muitas críticas ao Boaventura de Souza Santos. Mas não quero parecer um chato. Como eu disse, isso vai longe, não se resolve tão fácil.

    Uma pergunta difícil: qual a base histórica das referências morais (certo e errado)? Elas podem ser universalizadas a partir da história? É outra longa discussão. Recomendo um livro do C. S. Lewis chamado A abolição do homem.

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  9. Hum...

    Janos, com relação ao paganismo ou animismo (que não creio se tratarem exatamente da mesma coisa), Boaventura, e suas referências para Deus, talvez eu tenha sido apressado ao juntar os conceitos. De todo modo, nesse assunto estou indo para longe dos meus conhecimentos, e não tenho opinião formada.

    Estou lendo o Boaventura que o Gabriel recomendou, e já faz um tempo que quero ler 'A Abolição do Homem'. Assim que conseguir comento com você.

    De todo modo, tenho a impressão que estes assuntos ainda vão voltar no blog em tópicos futuros. Quem sabe daí a própria conversa ajude a tornar a discussão mais dinâmica, e você não tenha que se preocupar em escrever muito para mostrar seu ponto.

    Abraço!

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  10. "A identificação é uma necessidade humana, mas a diferenciação parece ser uma obsessão civilizada. Uma obsessão que pode ter sido gerada pela perda dos critérios de identidade. A identidade de um indivíduo só pode ser construída no contato com um conjunto de relações sociais que tem um sentido comum. Sem referências não há identidade. O que o pós-moderno pede é justamente que tenhamos a liberdade de não nos prender a uma identidade "imposta" pelo meio, ou seja, identifique-se a partir de si mesmo. Este é o grande paradoxo: nossa identidade não vem de nós mesmos, ela vem de fora para dentro."

    Este trecho está no texto "Civilização e Preconceito", do Janos, em http://umanovacultura.blogspot.com/2011/05/civilizacao-e-preconceito.html

    A leitura deste texto me fez ver que o meu texto permite algumas confusões mais no sentido da palavra "identidade". Refletindo, percebi que estamos na verdade usando palavras parecidas para falar sobre conceitos paralelos, não divergentes mas também diferentes um do outro.

    No trecho que colei acima, e no texto (que recomendo), Janos usa o termo mais no sentido da expressão "quem sou eu". "Eu sou Fulano, eu sou um profissional x". Quando eu me referi à identificação com outros grupos, me referi à capacidade de se sensibilizar com o sofrimento do outro - mesmo ele sendo "outro" e não alguém como "eu". Como se houvesse na vida de outro ser algo que você reconhece em si, e isto pode ser a até mesmo a simples capacidade sentir dor.

    Exemplo que invoco é a alta identidade cultural de alguns povos indígenas, aliado ao profundo respeito pelos animais abatidos e pelos inimigos de guerra. Eles sabem "quem são", e que são em oposição ao outro, mas respeitam o outro.

    Só um adendo que achei importante...

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  11. Felipe,

    Talvez o termo "empatia" combine melhor com isso que você descreveu?

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  12. Sim. Acredito que sim.
    Estou ainda re-organizando minha compreensão deste tópico, mas é por ai sim o que quis dizer.
    Eu ainda fico em dúvida, entretanto, se a empatia não depende da identificação (no seu sentido) mesmo. Acho que preciso de mais reflexões nisso.

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  13. Neste primeiro comentário do Janos está grande parte das nossas questões chaves.

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