"Dê-me uma selvageria cujo vislumbre nenhuma civilização seja capaz de suportar"

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A morte da Intimidade

O que significa abrir nossa intimidade para alguém? Nos tornarmos íntimos com alguém? Estas perguntas talvez forcem muitos a re-explorar regiões bastante empoeiradas de nosso vocabulário. Em tempos em que a palavra "amigo" se associou a um número, e que tudo pode se tornar público com um "clic", o que é que não é público? O que não deveria ser público? A intimidade morreu... mas, o que era isso mesmo?
"O que você faz quando
Ninguém te vê fazendo
Ou o que você queria fazer
Se ninguém pudesse te ver"
("Quatro Vezes Você" - Capital Inicial)
A esfera da intimidade é oposta à esfera pública. Humanos costumavam viver imersos nessas duas esferas - ora se relacionando com sua vida pública, mesmo que em uma tribo, ora desenvolvendo sua vida privada, pessoal, íntima. Porém as novas tecnologias de mídia estão afetando seriamente esta relação. Tudo se tornou transparente, e não estamos atentos para o que estamos perdendo ao abrir mão de nossa intimidade. Queremos ser transparentes, atraentes, e "descolados" na web, em uma barganha invisível em que trocamos paulatinamente a capacidade e a possibilidade de ter relacionamentos de qualidade, pela maior quantidade de relacionamentos de fachada.

Mas não é só a internet que está matando a intimidade. Nossos relacionamentos estão cada vez mais imediatistas, levados pelo momento. A prioridade em se tornar "descolado", atraente, transparente, tornada óbvia na web, é apenas uma continuidade da mesma prioridade estabelecida na vida concreta. No âmbito feminino, a revolução sexual dos anos 60 foi um marco, mas talvez tenha sido já mais uma consequência desta tendência do que uma causa. 

 "Tudo é vaidade", de Charles Allan Gilbert, 1892.
(Fonte: Wiki)

A revolução sexual pode ser entendida também como consequência de diversos fatores: uma população, boa parte urbana, que saltou de 3 para 6 bilhões de pessoas em uma geração (chamada "baby-boom"), a chegada de métodos anti-concepcionais mais eficientes, e o estabelecimento de um capitalismo liderado pelas mídias de massa, detentoras de técnicas de manipulação e criação de desejos. A mídia envolveu-se e viu como lucrar com isso, daí logo as mulheres "conquistaram" a "liberdade" sexual masculina, antes conferida apenas aos homens pelo machismo e patriarcado. Este tipo de manipulação midiática "pró-desejos" é em parte mostrado na série documental "Century of the Self", de Adam Curtis (BBC, 2002). As relações tão como eram antes não valorizavam, de modo algum, as mulheres, mas o passo que estas foram induzidas a tomar as desvalorizou mais ainda - ainda que a maioria pense o contrário.

Não me entendam mal. A revolução cultural dos anos 60, que se desenrola até hoje em movimentos como o "Slut Walk", foi positiva em muitos e diversos pontos. Mas enquanto também representou o ganho de muitas coisas boas, destruiu também referências boas e importantes, nos deixando perdidos no mar da permissividade sem responsabilidade. Talvez possa ser vista como um marco importante também no início da destruição da intimidade vivenciada no corpo, pelas relações corporais. Antes, tais relações podiam ser tomadas como "um importante passo no relacionamento" - e trazerem consigo importante conteudo emocional. Hoje, são só mais uma transa - e o conteúdo emocional associado, quando existe, é suprimido ou jogado no lixo, por homens e mulheres. Dolorosamente, às vezes.

Outrora, a cultura permitia só aos homens a "liberdade" de fazer tal banalização, e ao mesmo tempo induzia, através das mulheres, que alguns homens ainda dessem valor a estas relações. Agora, com os dois sexos ignorando esta questão como "moralismo desatualizado", estes valores estão mortos, ou quase. Não é que antes fosse uma relação ideal, claro que não. Antes, muito antes, vivíamos relações igualitárias. O machismo deturpou muitas coisas, e banalizou muitas relações. A sociedade contemporânea apenas terminou o serviço.

No romance "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, um selvagem é levado à civilização - uma distopia ditatorial tecnológica - e lá é cobiçado pelas mulheres, claro (que cobiçam a todos, por sinal, menos o outro protagonista, um humano surgido com defeito de fábrica). Mas o selvagem, mesmo estando apaixonado por uma delas, recusa e se assusta com o convite sexual que recebe, a seu ver, tão cedo. Este tipo de raciocínio é aberrante a mentalidade moderna, e talvez já o fosse, em parte, na época de Huxley. Mas é um raciocínio coerente para a mente não-civilizada. Tem uma base sólida, fundamentado em um modo de ser e de se relacionar que prioriza relações profundas, estáveis, duradouras, confiáveis, e que respeita nossas emoções.

E porque esta intimidade é importante? Porque é nela, apenas nela, que nós não somos pessoas públicas, não somos fantoches. É na intimidade que nós temos verdadeira liberdade de sermos "nós mesmos". Sem a esfera da intimidade, por mais que desejemos, não somos livres, apenas cumprimos papéis - mesmo papéis que digam "faça o que quiser", não passam de atuações, pois estão sob os holofotes das atenções alheias, do julgamento do público. E a intimidade só existe porque existem barreiras entre ela e a esfera pública. Tais barreiras obrigariam aqueles, homens e mulheres, que têm o interesse de ter um relacionamento profundo, sério, maduro, e emocionalmente envolvente, a irem atravessando-as com calma, sem pressa, a medida que a relação se desenvolve e a confiança se constrói. Sem a esfera da intimidade, não há nada que permita que a verdadeira confiança exista. O mundo imediatista destróia a confiança, e com isso muito do modo como poderíamos vivenciar nossos corpos e nossas relações.

Entretanto, por mais que eu fale, tal como escrevi na postagem "Escolha e identidade", ver o valor da própria intimidade também é uma questão de escolha por identificação. E para poder realizar tal escolha, é necessario vivenciar a intimidade, e se ver reconhecido nela. Olhar para o seu íntimo, saber que ele existe enquanto íntimo, e respeitá-lo. Ver a intimidade de personalidade, de sonhos, de corpo. Do mesmo modo que quem não vivencia a natureza e outros seres, nunca entenderá a derradeira causa de porque defendê-la, quem nunca vivenciou a própria intimidade enquanto tal nunca saberá que poderia ter algo muito belo e valioso guardado no próprio íntimo.
"...Como alguém disse, "Carater é quem você é no escuro". O interessante é que hoje nós temos tão pouca escuridão. Nosso mundo é iluminado 24 horas por dia, é transparente. Com blogs e redes sociais, transmitindo o ruído de toda uma nova geração de pessoas que fizeram a escolha de viver suas vidas em público. É um mundo muito mais barulhento. Então um desafio que temos é lembrar: compartilhar demais não é honestidade. Nossa mania de twittar e mandar mensagens pode nos cegar para o fato de que as sutilezas da decência humana - caráter, integridade - ainda são o que importa, isso sempre será o que importa. Então nesse mundo barulhento pode fazer sentido para nós sermos um pouco mais explícitos em relação ao nosso código moral." (Pamela Meyer, na TED talk "Como detectar um mentiroso", por volta do 17º minuto.)


A sensação de solidão em meio à sociedade de massas tecnologizada está avançando a um novo nível: não estamos mais apenas "sós em meio à multidão". Estamos sós dentro de nós mesmos! Perdendo nossas peculiaridades, em meio a enxurrada de relacionamentos-relâmpago e twittadas de "o que eu comi no café-da-manhã" (ou quem). Nesse rumo, a espécie fica na verdade mais feia e grosseira a cada dia, mesmo que cercados por academias e salões de beleza.

9 comentários:

  1. "Nesse rumo, a espécie fica na verdade mais feia e grosseira a cada dia, mesmo que cercados por academias e salões de beleza." essa frase é um aperitivo para um próximo texto né?

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  2. Ah, quem quiser ver o vídeo da Pamela Meyer com legendas (em diversas linguas), é só ir no site do TED:

    http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/pamela_meyer_how_to_spot_a_liar.html

    Déia, hehehe, eu penso sim em continuar o assunto em próximo texto, porém não exatamente puxando por este ponto. Aguarde!

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  3. O Janos me pediu que desenvolvesse mais da frase "não estamos mais apenas "sós em meio à multidão". Estamos sós dentro de nós mesmos!".
    Percebi que também posso explicar melhor a imagem que escolhi usar, "Tudo é vaidade". A idéia é a seguinte:

    Tenho notado que algumas pessoas, cada vez mais, Têm dificuldade em "ficar sozinhas". Aquela sensação, que em alguns começa a ser terrível, de ficar em casa, sozinho, à noite. E quando digo ficar sozinho, quero dizer: sem facebook, sem mensagens instantâneas, sem a televisão ou a internet roubando sua atenção.
    Apenas, ficar só.

    Porque isto está se tornando tão terrível? O hábito de estar fazendo coisas pelos outros, ou falando com eles, está ocupando, em alguns casos (nem tão raros), 100% de nosso tempo desperto. Estamos desaprendendo o que é a solidão - e isso torna a solidão assustadora.

    Claro que algumas pessoas têm razões bastante diferentes e dolorosas para temer sua solidão. Traumas passados e grandes problemas na vida podem fazer isso. Porém hoje, isso não é mais o caso mais comum. Muitas pessoas estão se sentindo mal por estarem sós simplesmente por isso. Elas desaprenderam que podem ser, respirar, e fazer coisas, para si mesmo. Sem a vaidade compulsiva de fazer algo e twittar o que está fazendo, ou realizar algo apenas para dizer para os outros o que fez.

    No mundo em que tudo é transparente, tudo é vaidade. E onde tudo é vaidade, não existe mais o íntimo, e por isso alguns estamos solitarios como nenhum humano jamais esteve: sem perceber a presença de si próprio.

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  4. Oi Kana,

    li seu texto hoje e agora estou ouvindo uma música que me remeteu à ele, Intimidade, da Zélia Duncan.
    Ela fala
    "Intimidade é fato
    Não dá pra fingir".

    Acho que as atividades nas redes virtuais tem muito de aparentar uma suposta intimidade.

    Beijos!

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  5. Texto bem legal!

    E concordo com o que você comentou sobre o medo das pessoas ficarem sozinhas por algum tempo. É algo que dá para se ver facilmente por aí.

    parabéns, cara!

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  6. Boa, Kana! Concordo com quase tudo, mas acho que para falar da questão sexual, tem muitos outros elementos. Acho saudável se permitir na liberdade sexual justamente para compreender quem somos, e não acho q a revolução sexual seja retrocesso. Neste sentido, o imediatismo superficial dos relacionamentos em um extremo se contrapõe à repressão ao seu próprio corpo, no outro extremo. Achemos tal equilíbrio. =D
    K-léd

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  7. Felipe,

    Agora entendi melhor sua frase, e concordo. O medo da solidão indica o medo de ser você mesmo. Nos protegemos no fluxo de interações cujo conteúdo é cada vez mais insignificante.

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  8. A prioridade em se tornar "descolado", atraente, transparente - aquele humano vendável, mercadológico. homens e mulheres ´pós-modernos não tão felizes quanto parecem ser...

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  9. Oi Kana,

    Feliz Ano Novo! ;) E parabéns pelo post. Essa falta de intimidade é experimentada no cotidiano em diversas esferas. É duro perceber quando alguém está só representando para você e pior para si mesmo...

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